Fundamentalismo religioso, uma ameaça à política brasileira

 No calor das discussões do debate político nacional às vésperas das eleições que definirão o rumo do Brasil nos próximos quatro anos,ressurge no horizonte do cenário político uma forte ingerência do discurso religioso de corte fundamentalista. Temas como o aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, pesquisas com células-tronco entre outros, emergem com reforçado vigor, pautando o ritmo e os temas das eleições. No bojo das discussões não faltam vozes que se levantam de forma vigorosa na defesa dos “valores” cristãos contra uma suposta mentalidade perversa que invade o mundo da politica como um todo.  Na esteira das discussões figuram aqueles que não medem esforços para desqualificar os que defendem um Estado laico, capaz de mediar os conflitos entre os diferentes grupos que compõem o universo religioso brasileiro.

Num país composto por uma variada gama de cultos e crenças, como é caso do Brasil, um discurso político arrolado pela religião pode tornar-se, potencialmente, uma combinação um tanto perigosa. Os riscos de brotes de fundamentalismo são reais, e chama à razão quem assume uma postura agressiva e beligerante em relação à prática e fé do outro.

De acordo com a constituição de 1988, o Brasil é um Estado laico. Avalizado pela lei vigente, o Estado brasileira deverá manter a neutralidade como garantia de proteção a todos as religiões. Assim sendo, dentro deste marco jurídico, não haverá uma religião oficial do Estado.Ao contrário, o papel do Estado é o de garantir a liberdade de culto e promover a tolerância entre as diversas formas de manifestação de fé do seu povo.Não arbitra apenas em favor dos que professam uma religião, mas contempla também os que não têm religião. Por isso, passados mais de cem anos da República é preciso recordar uma vez mais que o Estado Brasileiro é laico e, reivindicá-lo com tal é dever de todos.

Fundamentalismo: o que é e como surgiu?

O termo fundamentalismo surgiu no círculo protestante americano antes da primeira guerra mundial. Os que se diziam fundamentalistas falavam com certo orgulho de uma postura ideológica que desafiava o modernismo. Na sua origem tratava-se de uma tendência de fiéis, pregadores e teólogos que tomavam a Bíblia ao pé da letra, de acordo com a doutrina protestante da Sola Scriptura.

A partir da década de 50, nos Estados Unidos, os televangelistas passam a ocupar um espaço cada vez maior nos veículos de comunicação de massa, sobretudo, o rádio e na televisão. Ganha força a pregação e as campanhas conservadoras. Esses pregadores acreditam que cada sentença da Bíblia é verdadeira e imutável, e, por isso, não há lugar para interpretação. O que foi dito, dito está. Em nome do literalismo, os métodos histórico-crítico e hermenêutico são ignorados e os textos bíblicos “interpretados”sem

relação com a vida e a história. Desconsiderando os avanços da ciência moderna, os cristãos de corte fundamentalistas aceitam o criacionismo passivamente; creem que o mundo tal como existe hoje foi criado em seis dias; rejeitam qualquer leitura que não seja a literal; defendem a unicidade do cristianismo, enquanto as demais religiões seriam apenas rituais pagãos e meras caricaturas da verdadeira religião. Deste modo, quem não se identifica com o cristianismo estaria predestinado à condenação. É importante lembrar que a mesma Igreja Católica defendeu, durante séculos, que fora do catolicismo não haveria salvação. Afortunadamente, esta postura não possui muitos adeptos nos dias de hoje.

Quando se fala em fundamentalismo, a tendência das pessoas é pensar, imediatamente, no oriente Islâmico e nos conflitos que envolvem grupos radicais que lutam contra a cultura cristã ocidental. Entretanto, não é necessário ir tão longe para descobrir traços de fundamentalismo no complexo mosaico religioso brasileiro. Declarações como as do Pastor da Assembleia de Deus Silas Malafaia sobre aborto e casamente gay revelam que estamos diante uma forma radical de fundamentalismo com rosto tipicamente tropical. Alguém poderia até argumentar que o ilustre Pastor apenas estaria exercendo seu direito de defesa da doutrina de sua Igreja. E, quanto a isto, estamos de acordo.

Porém, é preciso levar em consideração outros fatores. Seus discursos, proferidos de forma autoritária e em tom apocalíptico, despertam certa preocupação. Ao utilizar a Bíblia para, em nome da fé, atacar determinados grupos sociais e colocar-se numa posição de defensor do “povo de Deus” - diga-se evangélicos, na linguagem de Malafaia-, corre-se o risco da monopolização da Verdade, fechando-se à riqueza da diversidade, seja ela individual, cultural ou religiosa. A suposição de possuir a Verdade pode levar à negação do outro e seu direito de ser, viver e existir. Quando as religiões se fecham em sua autossuficiência, nas suas doutrinas e dogmas, em detrimento do bem comum e do respeito ao outro, arrisca-se embarcar na nau do fundamentalismo como forma de controle das mentes e dos corações das pessoas. Se tal postura vier a ganhar corpo e se fortalecer, poderá trazer consigo consequências desastrosas para a sociedade brasileira.

O fundamentalismo religioso é uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento, deixando para trás rastros de morte e destruição. Basta recordar os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, quando radicais islâmicos, num gesto de autoimolação, em nome de Alá, destruíram as torres gêmeas, matando centenas de pessoas inocentes. Atualmente há um consenso entre os especialistas de que o fundamentalismo, em todas as suas formas, é doentio e esquizofrênico. E, por incrível que pareça,a religião tem um enorme potencial para gestar fundamentalismo. 

Fundamentalismo e intolerância

O fundamentalismo não é uma doutrina. Não possui credo, nem dogmas próprios. Mas é um modo de interpretar e viver a doutrina.  Seu potencial explosivo consiste no fato de conferir caráter absoluto a um ponto de vista particular. Ao impor sua ideologia, o fundamentalista provoca um problema com graves consequências. Quem se arvora proprietário de uma verdade absoluta não estará disposto a aceitar outra verdade que não seja a sua. A intolerância, a agressividade, a guerra e o desprezo pelo outro e suas crenças torna-se lugar comum. Não admitir que o outro pense diferente, que tem o direito de professar outro credo pode levar a uma cruzada para aniquilá-lo.

Assiste-se, atualmente, no Brasil a uma tensão crescente entre determinados grupos evangélicos e a Igreja Católica. Algumas denominações evangélicas, sobretudo as de corte neopentecostal, procuram cooptar nas camadas menos instruídas do catolicismo novos membros para engrossar suas fileiras. Muitos pastores buscam desconstruir a imagem da Igreja Católica pelo uso de termos pejorativos. Grande babilônia é um deles. Seguindo o mesmo estribilho, as religiões de matriz africana também são demonizadas. O Candomblé e a Umbanda associados a rituais diabólicos. Tal postura tem levado a consequências funestas. Notícias de fanáticos destruindo imagens sacras nas igrejas tornou-se lugar comum; ataques a terreiros e templos de outras religiões, frequentes. Num País que se caracteriza pela diversidade de crenças, culturas e raças tal atitude representa um retrocesso e se perfila como uma ameaça à tolerância religiosa. Perpetra-se na sociedade brasileira uma cruzada esquizofrênica que procura separar grupos religiosos em “comunidade de eleitos”de um lado e a “horda de condenados” do outro. Esta mentalidade perversa avaliza o discurso de que quem é evangélico está salvo, enquanto os católicos e adeptos dos cultos afro-brasileiros e membros de outras religiões, condenados.

Na mente fundamentalista não há lugar para a misericórdia para os que não comungam de sua fé. A Bíblia, tomada ao pé da letra, é passaporte para o céu ou para o inferno. Deus só tem olhos para quem “aceita Jesus”.

Uma pergunta que surge é: de que modo devemos enfrentar o fundamentalismo? Segundo Leonardo Boff, “os fundamentalistas são quase inacessíveis à argumentação racional. Nem por isso, deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e o uso da razão para mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e a prática fundamentalista”. Apesar de difícil, o diálogo é o único caminho para a construção de uma sociedade mais tolerante que fomente o intercâmbio dos valores inerentes a todas as religiões.
                                                                                                  
Fundamentalismo e politica: uma combinação explosiva

A associação promiscua entre religião e política tem se mostrado um componente perigoso que tende a levar a uma onda de ódio e perseguição a indivíduos e grupos. A história está recheada de casos concretos que não convém explorar aqui. Entretanto, é importante lembrar que o mesmo catolicismo já experimentou deste veneno e as consequências foram as piores possíveis. Ao ser cooptada pelo poder civil, a religião - catolicismo - passou a normatizar diretrizes e políticas de governo, assumindo, assim, o lugar do Estado, impedindo-o de legislar em favor de todos.

É comum encontrarmos nas entranhas do fundamentalismo religioso o desejo por ocupar espaços de poder. Não é a toa que a Pastora Ana Paulo Valadão[1], num vídeo que pode ser visto na internet, num aparente surto psicótico, assume um discurso demonizador em relação aos que ocupam o poder no Brasil. De acordo com a Pastora, não são pessoas más que estão no poder, mas o próprio Mal assumiu o poder.Portanto, é preciso exorcizá-lo para que a Igreja - sua igreja, claro - reine soberana sobre os justos. Se este discurso pega, estaríamos na iminência da implantação de um governo teocrático em solo brasileiro. 

Recentemente, a Assembleia de Deus,insatisfeita com o “pouco crescimento” da bancada evangélica no parlamento, se articula para fundar um partido próprio e conquistar, assim, maior espaço na politica brasileira. O número de pastores candidatos cresce exponencialmente a cada eleição. O poder é disputado e impõem-se sobre os membros destas igrejas o voto de cabresto. No jogral do cabrestismo escuta-se, com frequência, que “evangélico vota em evangélico”. Deste modo, capitalizam-se as consciências para legitimar projetos de determinados igrejas para ocupar espaços e postos cada vez mais importantes na política brasileira.  

Num jogo de influência nunca visto antes, com quatro tuitadas, o Pastor Silas Malafaia levou a candidata evangélica Marina Silva a retroceder em seu plano de governo sobre temas relacionados ao aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estejamos ou não de acordo sobre os temos postos, o que é grave é um líder religioso fundamentalista influenciar um candidato a presidente a ponto de mudar seu programa de governo. Isto só fortalece a convicção dos analistas que mais que nunca a religião está dando as cartas nestas eleições e a esperança de ter um presidente do seu rebanho coloca os evangélicos de cariz neopentecostal, em estado de euforia.

A própria candidata Marina Silva[2], recentemente, numa pregação na Assembleia de Deus na cidade do Recife recorre a um discurso um tanto estranho. Após saudar os “irmãos”, afirma em sua fala,que por trinta e sete anos foi um vaso quebrado. Contudo, Deus a resgatou, “louvado seja Deus, aleluia!”. Para quem conhece a história da candidata, essa afirmação soa um tanto constrangedora. Marina se projetou no cenário político nacional como uma pessoa ligada a Igreja Católica, às comunidades eclesiais de base;uma aliada do homem da floresta na luta em favor dos pobres no Estado do Acre na década de 80. Ao se comparar a um vaso rachado, uma pessoa perdida, Marina fala de seu passado católico com desdém. Estava perdida e agora se encontrou. Discursos como este são extremamente perigosos para um candidato ao mais alto cargo da república.

Algumas conclusões

1. Fé e política não podem ser separadas. Elas se encontram juntas na vida das pessoas. Uma não exclui a outra. O cristão deve empenhar-se na promoção da justiça e na busca do bem comum. Uma fé madura pode ser útil na escolha de projetos que se aproximem o máximo daquilo que foi o projeto de Jesus para a humanidade. Por sua parte, uma leitura correta da Bíblia tende a ser uma fonte de inspiração que ajudará na escolha das melhores propostas de governo e a votar em candidatos confiáveis. Entretanto, quando a fé se torna um pretexto para alcançar o poder pelo poder, pode ter como resultado a implantação de Estado teocrático.

2. A religião é uma luz que pode iluminar a vida política. Por isso mesmo, as Igrejas não devem deixar de exercer seu papel fundamental na defesa da vida e propor ações políticas que beneficiem os mais vulneráveis socialmente. Os temas conflitantes da sociedade devem ser vistos a luz da fé. Isso, contudo, não autoriza nenhuma Igreja ou religião a impor seu ponto de vista sobre toda uma sociedade. No campo da argumentação vence quem se coloca ao lado da verdade mesmo que não a imponha, pois a verdade se impõe por si mesma, enquanto ela mesma não é monopólio de ninguém.

3. O debate em torno de temas como aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, eutanásia, entre outros, já está resolvidos dentro da visão de fé da Igreja. Estes são princípios inegociáveis. A igreja sempre milita a favor da vida e se posicionará contra tudo o que atente contra ela. O verdadeiro cristão não praticará aborto simplesmente pelo fato de existir uma lei que o regulamente. O que não pode acontecer é a religião substituir o Estado e seu pode de arbitrar. Por esta razão, aprofundar o papel da religião na sociedade e sua relação com a política favorecerá um debate mais maduro que pode evitar o crescimento do fundamentalismo religioso que surge, de forma ameaçadora, no cenário político brasileiro.

4. A visão reducionista que procura colocar temas morais no centro de discussão da agenda eleitoral é equivocada. Eleição não é momento oportuno para debater tais questões. As Igrejas podem e devem propor uma discussão sobre temas de seu interesse em circunstancias mais serenas. Emparedar candidatos tende a empobrecer o debate político e bloquear o diálogo que pode propor ações efetivas para os problemas que afetam o País e necessitam de soluções urgentes.
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