A Igreja ante o desafio do diálogo inter-religioso

                    
Quando o diálogo entre as religiões desponta como uma das questões de maior relevância do mundo contemporânea, não é difícil constatar que estamos ante um fato irreversível que, aos poucos, vai conquistando espaço na reflexão teológica atual. A globalização, o fluxo de pessoas, os meios de comunicação de massa influenciam, fortemente, o encontro entre povos e culturas, e colocam frente a frente tradições religiosas antes totalmente desconhecidas umas das outras. Neste campo em que somos convidados e conviver com o diferente, a respeitar as culturas, a diversidade de crenças, seja no âmbito coletivo quanto individual, a tolerância religiosa torna-se elemento fundamental para a construção de uma sociedade pautada na convivência harmoniosa, e o diálogo entre as religiões, uma possibilidade para fazer da paz uma realidade possível e não um sonho inalcançável. Por isso mesmo, desenvolver uma nova sensibilidade que leve em conta as diferenças étnicas, raciais, culturais e religiosas dos povos da terra torna-se uma necessidade inadiável.

O termo diálogo procede etimologicamente do vocábulo grego dialogomai que significa conversar, discursar, conversa alternada entre dois ou mais sujeitos. Enquanto ação humana, ele não acontece espontaneamente. Ao contrário, ele é inerente à condição humana que, com palavras e gestos, estabelece canais de comunicação e interatividade interpessoal. Não há diálogo fora do contexto linguístico, histórico, social que prescinda da palavra como instância mediadora entre os sujeitos. A palavra nos conecta com o mundo, enquanto incrementa uma relação ética de cortesia que viabiliza uma maior abertura para as realidades que nos são alheias. Dialogar é uma condição para existir, viver em sociedade e sobreviver como civilização. Em outras palavras, pelo diálogo, saímos de um sistema fechado e restrito de relações e penetramos no espaço de um mundo pluralista e culturalmente diversificado. A comunicação – por palavras e gestos - favorece o enriquecimento mútuo, a transmissão dos valores éticos e espirituais que plasmam as culturas dos povos.

Nesta conjuntura histórica, as religiões não estão imunes a estas novas tendências culturais. Ao contrário, as tradições religiosas, são convocadas a, juntas, construir formas de superação dessa complexidade existencial e, assim, apontar novos horizontes institucionais de soluções para os graves e urgentes problemas que afetam a existência humana. Assim, o diálogo entre elas, torna-se um elemento vital para a construção do futuro da humanidade. Quando este diálogo é autêntico, favorece a abertura para além das fronteiras do individualismo e permite aos sujeitos sociais submergir na dimensão da coletividade. Mas, na simultaneidade do ato da materialidade da palavra que se quer saber, poder, ouvir, o diálogo se constitui também um risco que se incorre nessa alternância com a alteridade. Entrar no mundo do outro e ocupar um espaço que nos é estranho, requer aceitar uma postura consciente de que o chão que pisamos é um terreno que não nos pertence. É uma aventura arriscada que coloca em questão a vida e a autocompreensão dos interlocutores. A grandeza do diálogo não consiste na descoberta de algo novo, mas no de havermos encontrado no outro aquilo que não havíamos visto antes.

Num mundo pluralista como o de hoje, as religiões tem o grave dever de compartilhar espaços, evitar conflitos que, potencialmente, poderiam levar à intolerância, a confrontos violentos e a guerras “santas”. E, sobretudo, através do diálogo, conciliar interesses divergentes, de modo a partilhar,das riquezas de cada uma delas na construção de uma unidade multicultural.

No âmbito da Igreja católica, é possível constatar certa mudança dialógica na relação com as religiões não cristãs. Esta mudança advém das inovações propostas pelo Concílio Vaticano II e são visíveis nos campos da liturgia, pastoral e na reflexão teológica. O diálogo prevaleceu sobre a desconfiança e a indiferença. O cristianismo e, em particular a Igreja Católica, se encaminha para uma maior abertura à aceitação da riqueza de cada tradição religiosa. Nesta relação dialógica,ela não precisa abdicar da sua identidade, mas, ao contrário, aprofundá-la. Aceitar a diferença é a condição sine qua non para que as religiões possam conviver pacificamente. Retomando a afirmação de Hans Küng: “não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. Sem paz entre as religiões não haverá diálogo entre as religiões”, acreditamos que, apesar das discórdias do passado, as religiões podem ser sinal de esperança para o futuro do conjunto da humanidade.

Transcorridos 50 anos desde concilio Vaticano II, ainda é vigente e atual o chamado feito pela declaração conciliar Nostra Aetate a olhar positivamente e descobriras riquezas das religiões não cristãs. Assim como estabeleceu a Nostra Aetate, a Igreja Católica “não rejeita nada daquilo que é santo e verdadeiro nestas religiões”, (NA 2). Deste modo, acolhe-las como expressões do Sagrado é uma questão urgente, pois um diálogo sincero pressupõe a aceitação da polifonia das manifestações de Deus que assume nomes diferentes no conjunto de cada tradição religiosa.

Quando se trata de tradições religiosas, o diálogo não se faz com palavras apenas. Por seu simbolismo, os gestos se expressam com maior vigor. Neste sentido, os papas do pós-conciliar trataram com muita atenção as questões relativas ao diálogo com as outras religiões. Dentre eles, Paulo VI, destaca-se-à como um dos que mais promoveu a arte do diálogo e pavimentou o caminho para o surgimento da teologia do pluralismo religioso. Alguns documentos mais significativos do Magistério sobre o diálogo inter-religioso foram escritos durante seu pontificado, destacando-se entre eles a Encíclica Ecclesiam Suam, publicada em 1964, no intervalo entre a primeira e a segunda sessão do Concílio, conclamando a Igreja a fazer-se coloquium, palavra em diálogo com o mundo hoje. De acordo com o documento supracitado, se diálogo é reciprocidade, a Igreja deve cumprir sua missão respeitando as diferenças existentes entre as culturas e as tradições religiosas. Na exortação pós-sinodal Evangelii Nuntiandi, resultado do Sínodo dos bispos de 1975, se dirigirá aos membros de outras religiões com o mesmo espírito de afeto e estima dos documentos anteriores.

Dentre as ações propositivas de Paulo VI que deram um forte impulso ao diálogo entre as religiões não cristãs e a Igreja Católica, a criação em 1964 do Secretariado para os não cristãos, denominado atualmente, de Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso será um marco importante. Os anos que sucederam o Concílio serão prolíficos na produção de documentos que expressam a preocupação da Igreja em percorrer o caminho do diálogo, a exemplo da Constituição Pastoral Gaudium et Spes,Lumem Gentium, a encíclica Ecclesiam Suam, as Instruções Diálogo e Missão e Diálogo e Anúncio, entre outros.

Dando continuidade às ações de seu antecessor, João Paulo II, promoverá uma série de iniciativas concernentes ao diálogo inter-religioso para que este não se reduza a uma mera relação de cordialidade. As frequentes viagens a países de minoria cristã, a produção de documentos do Magistério Ordinário, encontros com líderes religiosos e, sobretudo, a Jornada de oração pela paz em Assis em 1986, demonstram a incansável atividade deste pontífice para promover e ampliar relações cordiais com os não cristãos. Pela fecundidade de seu pensamento João Paulo II deixará um legado incalculável de iniciativas para o futuro do diálogo da Igreja com as outras religiões. Contudo, seu pontificado será lembrado também por uma série de retrocessos, que enunciam as contradições deste líder na configuração da dualidade entre a abertura pessoal ao diálogo em contraposição ao fechamento institucional, evidenciado pela aprovação da Dominus Iesus, o qual, afirma a unicidade e universalidade de Cristo e da Igreja Católica, o que vem a gerar um clima de desconforto nas relações entre as Igrejas cristãs e outras religiões com a Igreja Católica.

O breve pontificado de Bento XVI não ocasionará mudanças significativas no que concerne à dinâmica do diálogo. Um aspecto positivo a se destacar será a convocação em julho de 2006, pelo próprio papa, da Jornada Mundial de oração em Assis, que resgata a continuidade do esforço da Igreja em manter vivo o diálogo com as outras religiões.

Em suma, é possível perceber que os avanços na reflexão em torno do diálogo entre e com as religiões ocorrem num clima de tensão de permanente. Entretanto, apesar destas tensões e conflitos, o diálogo inter-religioso configura-se como uma trilha pela qual Deus atua na história humana através do Espirito Santo, e torna o encontro entre as religiões um autêntico diálogo de salvação.

Por: José Barbosa
Anterior Proxima Página inicial