A hora da Igreja: evangélicos na política brasileira

Num recente vídeo[1] publicado na internet, a Pastora da Igreja Batista da Lagoinha, Ana Paula Valadão, afirmava que a hora da Igreja entrar na política havia chegado. “Nós estamos indo para a política brasileira e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja do Senhor”, gritava a plenos pulmões a pastora. No mesmo vídeo,assevera que a igreja precisa ir aos lugares dominados pelas trevas, isto é, o espaço político, infestado pelas forças do Mal, segundo ela.

As afirmações de Valadão despertaram interesse por terem sido proferidas justamente antes das eleições majoritárias de 2014, quando o povo brasileiro se preparava para eleger a maioria de seus representantes. Entretanto, há outros fatores que são preciso levar em consideração. O primeiro refere-se à constatação de que, atualmente,há um substancial crescimento de aspirantes evangélicos a cargos eletivos nas diversas casas legislativas, inclusive à presidência da república, como no caso do Pastor Everaldo Dias Pereira da Assembleia de Deus. A concepção de que a política é um espaço de trevas e que só as igrejas, através dos “homens de Deus”,poderiam levar luz a este ambiente dominado pelo mal, seria motivo suficiente para preocupar a sociedade brasileira como um todo, pois a religião como tal não deve substituir o Estadonas suas prerrogativas de governar. Em segundo lugar, é preciso ter em conta que a segundo a Constituição de 1988, o Estado Brasileiro é laico, ou seja,não é ateu, que nega qualquer forma de religião, nem teocrático que adota uma religião que formula as políticas do Estado. Esta é razão pela qual não oficializa nenhuma religião. Sua função é a de garantir a liberdade de culto e promover a tolerância entre as diversas formas de manifestações religiosas do seu povo.

De acordo com o último censo do IBGE, um em cada cinco brasileiros se define como evangélico. De 2,61% da população em 1940, passaram para 22,16% em 2010. Novas igrejas surgem a cada dia e a tendência é que este crescimento se acentue ainda mais nas próximas décadas. De um tímido aparecimento na vida social, essas comunidades se projetam para exercer uma influência cada vez maior na sociedade. Por conta desta nova configuração religiosa no Brasil, torna-se urgente a tolerância, o aprimoramento da convivência e o diálogo fraterno entre as diversas denominações cristãs. Esta, contudo, não é uma tarefa simples como se imagina. Comunidades evangélicas de viés neopentecostal tendem a se fecharem em sua autossuficiência. A orientação fundamentalista destes grupos leva, necessariamente, ao isolamento dos seus membros numa “comunidade de eleitos.” Esta é a razão pela qual o diálogo e a tolerância tornam-se quase impraticáveis na conjuntura atual de uma sociedade que é cada vez mais plural. A presença destes grupos religiosos nos espaços políticos poderia sinalizar que por trás de um discurso que prima pela defesa de valores morais e cristãos, haveria, na verdade, o projeto de impor à sociedade, ideais e princípios doutrinais destas igrejas.

A associação entre fé e política no Brasil, remonta ao período colonial. Neste período, a Igreja Católica exerceu um papel fundamental para legitimar o projeto colonizador português. Atualmente, mesmo mantendo certo grau de influência no imaginário da população, o catolicismo vem perdendo força como único ator religioso no universo religioso brasileiro. A participação evangélica é cada vez mais visível, projetando-se como um componente importante na nova configuração social, religiosa e política nacional.Pessoas e partidos pouco conhecidos da população ligados às comunidades evangélicas vêm ganhando, progressivamente, notoriedade social. O PRB, Partido Republicano Brasileiro, braço político da Universal tem como grande expoente o Bispo Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Crivella tem trânsito fácil nas diversas esferas do poder central e até chegou a ocupar o cargo de ministro da pesca no governo de Dilma Rousseff. O PSC, Partido Social Cristão, possui em seus quadros o Pastor Marcos Feliciano, da Assembleia de Deus, ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O PR, Partido da República, congrega um grande número de filiados de diversas Igrejas como a Batista, Universal e Assembleia de Deus. Um dos seus quadros mais proeminente é o presbiteriano Anthony Garotinho.

A nenhum cidadão é vetado o direito à participação na vida política, independentemente de seu credo ou opção religiosa. Entretanto,o fato de que a maioria dos aspirantes a cargos eletivos provirem de comunidades neopentecostais as quais ensejam, pelas via da política, usar da religião para influenciar decisões que envolvem toda a coletividade é algo preocupante.A recorrência a uma leitura literal da Bíblia desconectada da vida e da história afasta a possibilidade de uma interpretação comprometida com a realidade, revelam o viés fundamentalista destas pessoas. A ingerência das religiões no espaço político tende, quase sempre, a impor uma agenda de princípios próprios, criando obstáculos para uma discussão madura sobre temas importantes e fundamentais para a sociedade como um todo.Embora alguns estudiosos afirmem que a presença de lideranças evangélicas – refiro-me as de orientação fundamentalista - na vida política não represente um problema real, episódios recentes como a polêmica passagem do Pastor da Assembleia de Deus, Marcos Feliciano pela CDH da câmara dos deputados, deveria acender o sinal de aleta.Nesta mesma direção, a alteração do programa de governo da candidata Marina Silva em 2014 com relação aos direito da comunidade LGBT por pressão do Pastor Silas Malafaia, é outro fato preocupante.

A vertiginosa escalada evangélica na vida política nacional vai mais além e revela outras intenções. Um fato que ganhou notoriedade nos últimos tempos foi a proposta da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) de criar um partido próprio, o Partido Republicano Cristão (PRC). O partido já está devidamente registrado, mas só estará apto a participar das eleições municipais de 2016. A intenção de fundar um partido próprio, contudo, desperta algumas dúvidas. Os pastores reconhecem que para continuar a cruzada para impedir no congresso a tramitação de projetos que atentam contra os princípios doutrinais defendidos por suas igrejas é preciso ter uma maior força de pressão. Para tanto, é necessário colocar na arena política homens tementes a Deus, afirma Marcos Feliciano, um dos oradores do evento. A rejeição das ideologias de esquerda ou de uma agenda progressista é evidente, enquanto se coloca debaixo do leque da política questões de cunho puramente religioso. 

Às religiões e igrejas,seja elas de qualquer matriz,se assegura o pleno direito de defesa de seus princípios e propostas, inclusive, o de utilizar os meios adequados para propô-los à sociedade. Porém, a política jamais deveria ser utilizada como canal para dificultar o debate acerca de temas de interesse geral, uma vez que isso poderia se configurar como um atentado tanto à liberdade individual quanto ao estado democrático de direito.Os exemplos acima mencionados ilustram de forma clara como o debate político arrolado exclusivamente sobre questões de cunho moral e religioso tende a barrar discussões urgentes para o amadurecimento da democracia e o bem da sociedade.

Para concluir

Acreditamos, em princípio, que a presença de evangélicos na política não deve ser encarada como uma ameaça à democracia. Isso, porém, coloca diante de nós um grande desafio. A nova configuração religiosa brasileira exigirá a proposição de novos mecanismos de relacionamento e interação entre as diversas crenças que compõe o universo religioso nacional. A sociedade brasileira terá que repensar questões importantes como a tolerância, o respeito mútuo, a relação entre as diferentes denominações cristãs e as outras manifestações de fé do povo,como base para uma sociedade verdadeiramente democrática. Nesta nova correlação de forças, estabelecida a partir da inserção evangélica na política, o Estado Laico, deve admitir e proteger todas as formas de manifestação religiosa. Mas, por seu turno só deveria admitir aquelas religiões que admitem e respeitam as outras religiões.

Fé e política não podem ser separadas. Elas se encontram juntas na vida das pessoas. Uma não exclui a outra. O engajamento do cristão, seja ele católico ou evangélico, na promoção da justiça é imperativo.Uma leitura correta da Bíblia tende a ser uma fonte de inspiração e poderá ajudar as pessoas a escolherem as melhores propostas de governo e a votar em candidatos confiáveis. Entretanto, quando a fé se torna um pretexto para inibir as discussões vitais para a sociedade transportando para o debate político questão que pertencem a outros âmbitos, corre-se o risco de tornar a política uma extensão das religiões e das Igrejas.

A visão reducionista que prioriza as questões morais, colocando-as no centro das discussões da agenda eleitoral, é equivocada. Eleição não é momento oportuno para debater tais questões. As Igrejas podem e devem propor uma discussão acerca de temas de seu interesse em circunstâncias mais serenas. Emparedar candidatos e travar pautas sociais tende a empobrecer o debate político e a inibir um diálogo proveitoso que poderia concretizar ações propositivas para os problemas que afetam o país e que necessitam de soluções urgentes.

Por: José Barbosa da Silva
Blog : Espaços Paralelos 
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