A Crise ecológica como ponta do iceberg da crise civilizacional


O nosso planeta vem dando há muito tempo sinais incontestáveis de esgotamento, mudanças cada vez mais rápidas são perceptíveis ao nosso redor. Ninguém de bom senso contesta que o grande responsável pela mudança e declínio, pela degradação e esgotamento é o próprio ser humano. Afirmar que o ser humano é responsável pela crescente crise ecológica é mostrar que a crise tem outras nuances.

Na verdade o que vemos acontecer com o meio ambiente é o ponto mais visível de uma crise que atinge muito mais profundamente nosso tempo: a crise civilizacional. Por mais doloroso que possa parecer, a verdade é que vivemos sim, uma crise civilizacional. Nossa forma de organizar a vida em sociedade não mais responde às necessidades do ser humano e muito menos ao bom equilíbrio deste planeta. O modelo civilizacional sustentado pelo modo de produção capitalista mostra a sua perversidade na quebra de relações. Somos do parecer de que neste sentido, a crise ecológica deve ser lida não de maneira isolada mas como parte de um todo. Seguimos assim, o modelo proposto por Edgar Morin, partindo deste princípio, deveremos reconhecer que as crises que vemos estão todas interligadas e interferindo umas nas outras e mesmo determinando umas às outras. É uma crise do humano no que há de mais significativo neste termo. 

Falamos que a crise ecológica é a demonstração de uma crise mais ampla, uma crise de civilização e que na base desta se encontra um modo de produção. Com isto dizemos que o impasse, a profunda crise ecológica de hoje se encontra enraizada em um ideal de consumo desenfreado. Nas palavras de Leonardo Boff: Mais do que o fim do mundo estamos assistindo ao fim de um tipo de mundo. Enfrentamos uma crise civilizacional generalizada[1] O paradigma do crescimento econômico, de um progresso ilimitado e de que os recursos seriam eternos nos lançaram nas sombras quando o assunto é o futuro da humanidade. Todavia, seria limitado entrelaçar a crise ecológica ao modo de produção sem a devida apresentação de um outro fator determinante da crise: uma crise de sentido humano, em outras palavras, uma crise de compreensão do ser humano e do seu devido lugar no mundo. 

O lugar do ser humano no mundo, em uma auto-visão é essencialmente paradoxal porque este habita o mundo de maneira prosaica (realisticamente situado) e poeticamente (mediado por seus sonhos). O paradoxo natural recebeu um outro externo e perverso que gera o mal estar vigente na nossa civilização. O modelo de civilização que construímos a partir da modernidade tendo o capitalismo na base desta atingiu de maneira severa a humanidade em dois aspectos: o primeiro é a profunda quebra do senso de cuidado relacional presente no fato de ter se alargado a distância entre os ricos e os pobres. Com o passar dos tempos, percebe-se que os avanços não são capazes de estancar a pobreza, pelo contrário, a aprofundam enquanto beneficiam uma pequena parcela da população apenas. O segundo ponto diz respeito ao mundo como morada comum. Exteriormente o mundo foi convertido em mercadoria e desta mentalidade se usurpou a natureza. 

Estamos finalmente em um sistema-mundo em que tudo é mercadoria, em que se produz loucamente para consumir mais loucamente, e se consome loucamente para se produzir ainda mais loucamente. Produz-se por dinheiro, especula-se por dinheiro, faz-se guerra por dinheiro, corrompe-se por dinheiro, organiza-se toda a vida social por dinheiro, só se pensa em dinheiro. Cultua-se o dinheiro, o verdadeiro deus da nossa época – um deus indiferente aos homens , inimigo da arte, da cultura da solidariedade da ética, da vida, do espírito, do amor. Um deus que se tornou imensamente mediocrizante e destrutivo. E que é incansável pois a acumulação de riqueza abstrata é, por definição, um processo sem limites.[2]

Esta citação nos mostra a ligação entre crise ecológica e capitalismo posto que é típico desta lógica converter tudo em mercadoria. Desta forma, ocorreu uma privatização da natureza e tudo o que é produzido pela natureza, tudo o que nela estiver disponível foi interpretado como capital natural e por isso mesmo apropriado pelos detentores dos meios de produção. Interiormente, isso também teve um impacto profundo na compreensão de ser humano que não se vê como parte integrante da natureza mas como seu dono!

Reduzida a mercadoria, a natureza foi e é espoliada em todos os sentidos possíveis. Essa relação de poder com a natureza estabeleceu problemas em níveis globais que comprometem toda a humanidade. Percebe-se que a partir da década de 70 do século passado, tem crescido uma consciência ecológica, visível esforços em vista de um desenvolvimento sustentável, entraram em pauta o paradigma da sustentabilidade e do cuidado. 

Entretanto, não obstante este profundo crescimento, ainda vemos que se avançam os ataques à natureza e retrocedem as leis que visem defender a nossa casa comum. Com isso fica claro que estamos num choque de mentalidades, de um lado, uma perspectiva que visa resguardar a natureza e do outro, uma outra que visa apenas sugar dela o que ainda lhe resta. Esta está representada em nossos governos, cada vez mais incoerentes e incapazes de oferecer respostas efetivas. Deste embate entre mentalidades, temos duas alternativas, ou veremos a tragédia como resultado devastador, como vemos no teatro dos gregos, ou o drama que se conclui com a Ressurreição como na liturgia cristã.
Fonte: Espaços Paralelos
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